O desmatamento na Amazônia e as secas no Sudeste

A afirmação de que as secas da Região Sudeste estão sendo causadas pelo desmatamento da Amazônia não tem base científica, pois não resiste a uma análise dos dados climáticos, além de ser contrária ao bom senso. A anomalia climática pela qual São Paulo está passando é decorrente da variabilidade natural do clima e já ocorreu no passado, até com intensidade maior. O gráfico abaixo representa a variação dos desvios de precipitação padronizados para a Estação da Luz, no centro da capital paulista, que tem dados de chuvas observados desde 1888. Neste gráfico, notam-se desvios fortemente negativos na década de 1930, em 1933 e 1936, e na década de 1960, em 1963, 1968 e 1969. As séries de precipitação mais curtas, a partir dos anos 1950, também, registram as secas que afetaram a Região Sudeste na década de 1960. Ou seja, a região já esteve submetida a secas severas no passado, quando o desmatamento da Amazônia era incipiente.

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A Floresta Amazônica está lá porque as condições climáticas globais, notadamente o transporte de umidade vindo do Oceano Atlântico Norte, criam as condições propícias para que ela exista. É claro que, após a instalação da floresta, há complexos mecanismos de interação floresta-atmosfera que tornam o clima local mais úmido. Antes do soerguimento dos Andes, há 70 milhões de anos, a floresta não existia como ela é vista hoje. E no pico da última era glacial, há 15 mil anos, há evidências que também não existia uma floresta extensa e contínua, mas apenas algumas “ilhas de vegetação” ou “refúgios”, na denominação de Aziz Ab’Saber e Paulo Vanzolini. Portanto, é o clima global atual que permite a existência da floresta extensa e contínua, como observada modernamente, e não o contrário!

A umidade para as chuvas do Sudeste não é produzida na Amazônia. Ela vem do Oceano Atlântico Norte e, notem, apenas passa sobre a Amazônia e interage com a floresta. Como essa floresta produz atrito ao escoamento do ar que sai do oceano [como um carrinho elétrico que passa da cerâmica (superfície lisa) para cima de um tapete (superfície rugoso)], essa rugosidade cria uma intensa turbulência vertical e nuvens convectivas, que convertem mais eficientemente em chuva parte da umidade transportada pelos ventos. O restante do fluxo de umidade oceânica segue o seu caminho para fora da região.

A afirmativa de que “uma árvore cuja copa tenha 10 metros de raio fornece mil litros de água por dia para a atmosfera”, tem o objetivo de sensibilizar o público leigo e usa, de forma inadvertida, resultados, por exemplo, obtidos no Experimento Micrometeorológico na Amazônia (ARME), do qual fui organizador e coordenador, na década de 1980, na Amazônia Central, próximo a Manaus. No ARME, concluímos que a evapotranspiração [evaporação + transpiração da vegetação] injetava na atmosfera 3,4 mm por dia, ou 3,4 litros de água por metro quadrado por dia [l/m2/d], um número bem inferior ao que era tido como verdadeiro na época. Ora, um círculo de 10 metros de raio possui uma área de cerca de 300 metros quadrados que, multiplicada pela taxa de evapotranspiração acima, de 3,4 l/m2/d, resulta em 1000 litros por dia. A pergunta que cabe aqui é de onde essa tal árvore retirou a umidade que está transferindo para a atmosfera? E a resposta óbvia é “a umidade foi retirada da chuva que se infiltrou no solo”. Sabe-se que 98% a 99% da umidade que a vegetação retira do solo são utilizados apenas para manter baixa a temperatura de sua folhagem, por meio do processo físico de vaporização da água, que consome grandes quantidades de energia solar e refrigera a folhagem. Se a evaporação não ocorresse, a temperatura da folhagem poderia atingir valores superiores a 34-35°C e danificaria os tecidos da folhagem severamente, ou seja, a floreta não sobreviveria.

Portanto, apenas 1% a 2% da água retirada do solo ficam incorporados nas árvores. A floresta não é fonte de umidade, ela é apenas um transdutor da água da chuva, que é derivada do fluxo de umidade oceânica transportado pelos ventos para dentro do continente. A floresta recicla 98% a 99% da água da chuva, devolvendo-a para o escoamento atmosférico que a transporta para outras regiões do país. Na eventual hipótese absurda de se desmatar completamente a Amazônia, a rugosidade da floresta deixaria de existir, choveria menos na Amazônia e, pode se dizer, um fluxo de umidade um pouquinho maior do que o atual seria transportado para o Sudeste, possivelmente, aumentando a sua quantidade de chuvas.

É fato observado e incontestável que áreas dentro da própria Amazônia e ao sul da mesma apresentam uma estação seca bem definida ao longo do ano. No Centro-Oeste e Sudeste, por exemplo, a estação seca chega a ser de seis meses, notadamente entre abril e setembro. Por que não chove nessas regiões, se a floresta está em pleno funcionamento e transferindo umidade para o ar? É porque o clima global não permite a umidade existente na superfície seja convertida em chuva regionalmente. Durante a estação seca, e em anos de seca, essas regiões estão sobre o domínio de um sistema de alta pressão atmosférica de milhares de quilômetros de extensão e a inversão térmica associada a ele, existente a cerca de 2 km de altura, inibe a formação e o desenvolvimento das nuvens de chuva.

Além do ciclo anual, o clima do Brasil apresenta uma variabilidade interanual decorrente de fenômenos de escala global, como os eventos El Niño que, afirma-se, produzem secas severas sobre a Amazônia, mesmo com toda umidade que, em princípio, seria fornecida pela floresta. Em adição, existe uma variabilidade climática na escala decadal, resultante da variabilidade da temperatura da superfície (TSM) dos oceanos Pacífico e Atlântico, que, juntos, ocupam 54% da superfície do planeta. Durante o período que o Pacífico Tropical ficou, em média, ligeiramente mais frio, entre 1946 e 1976, choveu 10-20% a menos no País, de maneira geral. Isso porque, como a atmosfera [e, como consequência, o clima] é aquecida por baixo, o ar se aquece em contato com a superfície oceânica. Se as TSM ficam mais frias, o clima também se resfria, a evaporação dos oceanos se reduz, o transporte do fluxo de umidade para os continentes diminui e uma atmosfera mais fria e mais seca produz menos chuva na região tropical. A partir de 1999, o Pacífico voltou a se resfriar e o estado energético do clima parece estar semelhante ao do período 1946-1976, quando o Pacífico se resfriou e, portanto, mais baixo que o do período 1976-1998 recém-passado, em que o Pacífico estava mais aquecido e o estado energético do clima era mais elevado e chovia mais. Admitindo que o ciclo de resfriamento/aquecimento do Pacífico seja de 50-60 anos, conforme publicado na literatura especializada, o Pacífico deve permanecer, em média, ligeiramente mais frio até o período 2025-2030. Sob considerações meramente baseadas na dinâmica do clima global observada ao longo dos últimos 100 anos, se este se assemelhar ao período frio passado [1946-1976], as chuvas devem se reduzir em todo o território brasileiro, notadamente no Sudeste e Centro-Oeste, independentemente de se acabar com o desmatamento e recuperar as áreas degradadas na Amazônia.

Não quero dizer, com isso, que sou favorável ao desmatamento na Amazônia. Muito pelo contrário, sou contrário a ele, em função da fantástica biodiversidade nela existente e dos serviços ambientais por ela prestados à sociedade. E os produtores rurais da Amazônia têm plena consciência deste fato.

Luiz Carlos Baldicero Molion

Físico, doutor em Climatologia e pós-doutor em Hidrologia de Florestas. Pesquisador aposentado do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e professor aposentado da Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

Como muito bem explica o prof Molion, em uma verdadeira AULA, os ciclos de chuva são comandados pelos oceanos e não pelas florestas. O prof Molion provavelmente não quis abordar outros fatores para não complicar o texto, complementando que os ciclos de temperatura dos oceanos são comandados pelo Sol. De acordo com os especialistas, mesmo estando no pico do atual e atípico ciclo solar(n. 24), este é um dos mais fracos dos últimos 100 anos(deveria ser também o pico de chuvas), indica que já se iniciou uma nova mini era glacial com pico previsto para 2060. Assim, a equação demostrada deve ser precedida pelo fator solar:

menos atividade solar =+frio =-evaporação =+ar seco =-chuvas
Isso vai prevalecer durante o próximo século. Portanto teremos novas crises hídricas. E ainda mais severas.
Quero só ver como os “especialistas” que culpam o desmatamento e o aquecimento global vão se virar para explicar. Só trocar o nome de “aquecimento global” para “mudanças climáticas” não será suficiente.

3 Comments

  1. Posted 28 dezembro 2014 at 8:10 PM | Permalink

    Republicou isso em ed2ferreirae comentado:
    Alguns pingos nos ís do prof Molion. (grazie, amico sand-rio)

  2. Antonio Gomes
    Posted 1 janeiro 2015 at 2:57 PM | Permalink

    “31 de dezembro, às 14:40h, 22 graus, em Antônio Prado-RS. Nesse ano as uvas não amadureceram (estão muito ácidas), os pessegueiros não produziram, e as laranjeiras começaram a florescer (o que acontece no meio do ano, normalmente). À noite enfrentamos uma temperatura que oscila entre 10 e 14 graus. Será que no ano de 2015 o natal trará neve? A alimentação é uma coisa preocupante, pois nos EUA o macdonalds diminuiu a quantidade de batatas por porção porque não consegue mais batatas para comprar… O clima está mudando…”??? Este comentário foi de um participante do Painel global. O que temos visto é que o clima no mundo está em transição, as nevascas e tempestades estão agora pegando o Hemisfério Norte Europa, Japão e o frio já começa a chegar na África. As ilhas inglesas tiveram sob uma grande tempestade de neve e enfrentaram uma maré muito alta e forte, que castigaram a costa Inglesa. Filipinas nem se fala, apesar do frio um gigantesco Ciclone inter tropical está castigando toda área, tendo derrubado um avião que tentou em vão passar por cima. São Paulo enfrentou ventos superiores a 100 Km, e mais de 200 árvores foram ao chão, energia foi cortada e mais de uma dezena de pessoas morreram, os raios ajudaram nisso também. E no Ceará pasmem caiu granizo no sertão em três municípios. Gêlo do céu? Os interioranos, disseram é o fim do mundo.

  3. Patricia Kenney
    Posted 20 fevereiro 2015 at 10:21 PM | Permalink

    Obrigada, professor, pelos esclarecimentos. Se, os próximos 20 anos tivermos um clima semelhante ao ano passado podemos esperar por grandes problemas. Qual a chance de entidades científicas se organizarem e desenvolverem uma proposta de mitigação dos impactos? Um governo que se preza se antecipa, convida as autoridades no assunto para um debate e apresentação de propostas. Me sinto desamparada, sem saber o que fazer.


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