Preocupação com o meio ambiente não é sinônimo de consciência ambiental

Por Bruno Rezende.
http://www.colunazero.com.br/2012/08/preocupacao-vs-consciencia.html#more

bruno rezende, coluna zero, meio ambiente, sustentabilidade, pesquisa, ministério do meio ambiente, Rio20, brasil, consumo consciente

Já faz um bom tempo que ser Ecochato vem se tornando cada vez mais legal, ao ponto de se tornar algo politicamente correto e perigosamente hipócrita. Nos últimos anos algumas pesquisas vêm apresentando dados positivos, mas duvidosos, em relação ao aumento da consciência ambiental dos brasileiros. Dizer que está preocupado com a Floresta Amazônica, com a poluição dos rios e até com a redução do uso de sacolas plásticas virou uma resposta de aceitação social, assim como quando perguntamos as pessoas se elas são egoístas ou invejosas, mesmo que sejam elas dificilmente admitirão.

É muito fácil eu responder a uma pesquisa dizendo que me preocupo com a fome no mundo enquanto gasto uma fortuna comprando doces, refrigerantes, comidas sofisticadas e banco idas a restaurantes luxuosos. Também é fácil eu dizer que gostaria de um transporte público de qualidade falando isso de dentro do meu carrão importado. Da mesma forma é fácil eu dizer que me preocupo com o meio ambiente, mas na prática eu jogo lixo nas ruas, desperdiço água, jogo fora coisas que serviriam para alguém e fico sempre atento aos lançamentos das marcas mais famosas para afirmar meu status. É muito simples ser hipócrita e provocar resultados enganosos em uma pesquisa.

No fim de 2010 eu já havia publicado aqui o artigo “Pesquisas revelam que boas intenções contrastam com ausência de gestos dos consumidores brasileiros“. Apresentei duas pesquisas excelentes e inéditas que identificavam esta discrepância. Mas na última quinta-feira (16) fui surpreendido por uma pesquisa do Ministério do Meio Ambiente afirmando que a consciência ambiental dos brasileiros quadruplicou em 20 anos.

A pesquisa aconteceu pela primeira vez em 1992 durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento – Rio 92. A quinta edição desta pesquisa retornou, vinte anos depois, intitulada “O Que o Brasileiro Pensa do Meio Ambiente e do Consumo Sustentável”. Entre os dias 15 e 30 de abril foram ouvidas 2.201 pessoas, entre homens e mulheres, acima de 16 anos nas cinco regiões do país.

A meu ver é óbvio que a consciência dos brasileiros – em todos os sentidos – tenha quadruplicado em 20 anos, pois em 1992 o Brasil e os brasileiros ainda não estavam acostumados com a recente liberdade de expressão e informação adquirida após décadas de controle pela ditadura militar. Além disso, é preciso destacar um fato que ocorreu no mesmo ano, mas não é tratado com a devida importância histórica: o inédito impeachment de um presidente no Brasil. Como podemos ser conscientes sem saber da própria história? Enfim, isso é outro assunto.

O resultado otimista desta pesquisa sobre o aumento da preocupação ambiental dos brasileiros é muito vago para aceitarmos como uma conclusão positiva. Segundo a pesquisa 99,7% dos brasileiros consideram importante cuidar do meio ambiente. Alguém responderia ao contrário? Claro que não, é feio perante a sociedade. Mas, como eu disse no título deste post, dizer que se preocupa com o meio ambiente não é sinônimo de consciência ambiental. Isso fica bem claro em outras partes da pesquisa.

De acordo com a pesquisa 43% sentem muito orgulho do país e para a maioria, 28%, o principal motivo é o “meio ambiente”. 61% dos entrevistados continuam achando que o desmatamento das florestas é o principal problema ambiental do país, mas infelizmente – na última posição – apenas 2% disseram que o principal problema é a falta de conscientização ambiental da população. Bingo! Acredito que se os brasileiros estivessem realmente mais conscientes a resposta sobre a falta de conscientização ambiental deveria ter sido a mais escolhida, não acham? Até porque a falta de conscientização que provoca todos os outros problemas. Veja na imagem abaixo:

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57% dos brasileiros se consideram mais ou menos informados sobre meio ambiente, e eles têm toda razão. A polêmica das sacolas plásticas serve como exemplo para ilustrar isso, já que não nos dão informações suficientes nem discutem sobre reciclagem para apontar o saco plástico como o verdadeiro vilão. Apenas 3% dos entrevistados apontaram as sacolas como um dos principais problemas ambientais. 76% disseram ter aderido a campanhas de redução do uso de sacolas e 85% estariam dispostos a aderir em cidades que ainda não fazem campanhas de redução. Não sei se os entrevistados realmente aderiram às campanhas, ao ponto de nem se preocupar tanto com o problema, ou se quiseram apenas, mais uma vez, dar uma resposta politicamente correta.

Sobre hábitos desfavoráveis ao meio ambiente 41% admitem que jogam pilhas e baterias no lixo e 71% não jogam óleo usado na pia. Parece que as campanhas sobre descarte correto de óleo deram certo. Em compensação existe um dado duvidoso: 50% dos entrevistados dizem que não jogam remédios fora de validade no lixo. Ok, então jogam aonde? A pergunta deveria ser reformulada, pois a grande maioria descarta medicamentos vencidos no vaso sanitário. Já escrevi sobre isso no post “E se a água que usamos estivesse contaminada por medicamentos?”

Outro ponto curioso é em relação aos hábitos de consumo. Não é novidade que as decisões de compra em uma casa são muito influenciadas por mulheres, mas atualmente praticamente tudo que é importante é decido por elas, como alimentos, móveis, eletrodomésticos e roupas, o resto é decidido por ambos. Não é à toa que 40% dos cartões de crédito do país são usados por elas.

Por mais que as mulheres sejam naturalmente mais conscientes, a pesquisa identificou que apenas 32% dos entrevistados se sentem culpados ao consumir por impulso e somente 28% se arrependem quando compram produtos fora do orçamento. É um dado interessante, pois tem tudo a ver com as notícias que vemos ultimamente falando sobre o endividamento dos brasileiros provocado pelo uso descontrolado do cartão de crédito, aquele “grande” facilitador das compras. Segundo o último levantamento do Proteste (Associação Brasileira de Defesa do Consumidor) o brasileiro compromete 42% da sua renda familiar com dívidas no cartão de crédito. Além disso, 38,1% das famílias brasileiras não conseguem pagar a fatura antes da data de vencimento, sendo submetidas a altíssimas taxas de juros cobradas pelos bancos que podem alcançar até 323% ao ano.

Então estamos mais conscientes em relação ao meio ambiente, mas consumindo desesperadamente, gerando mais lixo, mais desperdício… faz sentido?

Ainda assim a pesquisa mostra que, se tivesse uma renda extra, 72% dos brasileiros aplicariam na poupança ou em fundos de investimento. Claro, se conseguirem pagar as faturas dos cartões de crédito.

Como qualquer pesquisa eu achei essa muito válida, mas não pela afirmação positiva noticiada pela imprensa, que o brasileiro está mais consciente, mas por mostrar que as respostas dos brasileiros são totalmente influenciadas pelo que a imprensa noticia. Portanto é necessário que tenhamos mais informação de qualidade, que possamos falar de outras coisas que levam a degradação ambiental, principalmente o consumismo. Só assim teremos brasileiros realmente conscientes, não só pelo que supostamente querem, mas pelo o que fazem.

Confira a pesquisa completa clicando aqui.

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5 Comments

  1. Posted 8 novembro 2012 at 11:40 AM | Permalink

    Sand.

    Vou dar um relato objetivo mostrando o que é a “consciência” ambiental do Brasileiro.
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    A prefeitura municipal de Porto Alegre, está querendo abrir uma trincheira (nem é um túnel) sobre uma rua situada num bairro nobre de Porto Alegre, os moradores da região (ou seus RPs, rico não fala, falam seus relações públicas!) ficaram contra esta trincheira porque vai “estragar o visual” da região.
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    Abriram um site na Internet (http://anitamaisverde.blogspot.com.br/ o nome do movimento se chama Anita mais Verde, Anita Garibaldi é o nome da rua) em que no início eram contra a derrubada das árvores, árvores estas que devem ser compensadas pela plantação de mais quatrocentas árvores em outros locais (quarenta árvores no máximo, a maioria com mais de 50 anos e espécies que caem quando atingem esta idade).
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    Como esta região é altamente valorizada pela especulação imobiliária, uma grande parte das antigas casas que existiam na região foram vendidas, no lugar dessas casas foram construídos edifícios que simplesmente cortam todas as árvores dos pátios das casas e impermeabilizam os antigos gramados transformando-os em estacionamentos.
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    Como não deixo passar coisas como estas enviei para o blog, logo no início do mesmo uma sugestão, sugestão esta que sugeria aos moradores das casas remanescentes (ainda é a maioria) entorno da rua que terá as árvores públicas retiradas, que tombassem as inúmeras árvores nos páteos das casas ou conservassem as árvores a frente das residências. A conservação é importante pois quando estas casas são alugadas para estabelecimentos comerciais, dá alguma praga nas mesmas e elas “caem espontaneamente”.
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    As minhas intervenções foram postadas do dia 18 de abril deste ano em diante, e pode ser lida no link a seguir.
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    http://anitamaisverde.blogspot.com.br/2012/02/nossa-divulgacao-vai-chegar-na-sua-casa.html#comment-form
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    O mais interessante é que apesar de inúmeros comentários terem sido respondidos pelos proprietários do Blog, simplesmente os meus, que tratavam da preservação de árvores tanto em terrenos públicos como privados, não foram respondidos até o dia de hoje, e o mais interessante ainda é que a partir de intervenções minhas neste e em outros blogs que tratavam do assunto, a reclamação deixou de ser em função do corte das árvores, mas sim de “prováveis erros no projeto viário da trincheira”.
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    Em resumo, o brasileiro quer conservação das árvores, de preferência nas árvores dos outros. Se ele tem uma casa, uma fazendola ou mesmo uma fazenda, ele é totalmente contra ao desmatamento, desde que este não esteja em sua propriedade, pois a sua propriedade é inviolável e ele se acha no direito de cortar o que bem quiser.
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    Este exemplo é clássico na nossa preocupação ambiental! Preservar o que está na terra dos outros. Os outros deixarem de consumir combustíveis, jamais ele!
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    Parece até aquela piadinha bastante batida, mas nem por isto ainda válida para o caso, de dois colonos em que um explicava para o os princípios básicos do socialismo. O nosso colono socialista explicava com detalhes para o outro que não era muito iniciado no assunto:
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    – Socialismo é o seguinte, se reparte todos os bens de produção, por exemplo, tu tens duas vacas, tu me dás uma e nós dois produzimos leite! Ou seja, a produção não fica concentrada nas mãos de poucos.
    O segundo colono que parecia ter entendido direitinho a explicação, disse:
    – Acho que entendi. Por exemplo, tu tens dois porcos, ai tu …….
    Antes de terminar a frase, intempestivamente o “mestre colono” que estava dando a lição, interrompeu intempestivamente.
    – Isto não vale. Tu bens sabe que eu tenho dois porcos.
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    O brasileiro, como também os povos do primeiro mundo, querem preservar, principalmente, o que não é seu e que não lhe diz respeito, ou seja é conservacionista da boca para fora.

  2. Antonio
    Posted 10 novembro 2012 at 1:11 PM | Permalink

    O que há é muito políticalha nessa questão.

  3. Luciano Luchese
    Posted 15 novembro 2012 at 1:01 PM | Permalink

    Só consigo “Ver” um problema de HIPERMETROPIA na visão/idéia dos Ambientalistas.
    …………………………………
    Tem um ditado que diz mais ou menos assim:
    – A mulher do vizinho, sempre é melhor que a nossa…
    ou
    – A grama do vizinho, sempre é mais verde que a nossa.
    ……………………………………………………….
    Já qdo, vc converter esse ditado , para a consciência ambiental, ele fica:
    – A Mulher do vizinho, sempre é Pior que a minha.
    ……………………………………………………………………………….
    pela Tabela derivada da pesquisa, vc verifica isso, pois que:
    – mais de 70% da população Brasileira, vivem nas cidades.
    Quais os maiores problemas Ambientais das cidades? – O Lixo,e o Esgoto,e em algumas a Poluição do Ar.
    Mas o que apontou a pesquisa? :
    – 61 % – desmatamento das florestas ;
    ( problema longe da sua convivência )
    – 47 % – Poluição dos rios, mares e outras fontes de água
    ( essa eles estão próximos da convivência )
    – 36 % – Poluição do Ar .
    ( problema do dia-a-dia, mas não é a maior preocupação )
    – 28 % – Aumento do volume de Lixo
    ( 2 comentários. Conscientização aumentou extraordinariamente ; não diria nem que é problema diário, e sim dos 86.400 segundos do dia, mas não é a maior preocupação. em que mundo eles vivem???)
    – 3 % – Falta de Saneamento
    ( em que mundo eles vivem ????? precisa dizer mais !!!! )
    – 2 % – Falta de conscientização Ambiental das pessoas
    ( concordo,e ainda são mal informadas por ONGS , e a classe artística, que adora fazer uma campanha, de quinta )
    – 3% – Consumo exagerado de Sacolas Plásticas
    ( problema??…solução: coleta seletiva ….)
    ………………………………………………………………………………………………………….
    Só consigo “Ver” um problema de HIPERMETROPIA na visão/idéia dos Ambientalistas.
    …………………………………………………………………………………………………………..
    Pra falar a verdade, acho que a maior parte da população e AMBIENTALISTAS está “expelindo seus dejetos, devidamente processados pelo aparelho digestivo”,e andando, para o meio ambiente.

    • Posted 16 novembro 2012 at 12:46 AM | Permalink

      Caro Luciano.
      .
      Vamos procurar entender o que passa na cabeça desses “ambientalistas de jardim”.
      Se fossemos nos preocupar com o saneamento ambiental das cidades, vamos transferir o problema de regiões distantes do nosso meio para ao lado de nossa casa. Teríamos que nos preocupar que as prefeituras gastassem o seu dinheiro em redes de coleta de esgoto e estações de tratamento do mesmo. Isto tiraria o dinheiro para se fazer viadutos e grandes avenidas para colocarmos canos enterrados. Quem perderia com isto tudo, as grandes empreiteiras e os 10% a 20% de propinas nessas obras.

      • Luciano Luchese
        Posted 17 novembro 2012 at 12:20 PM | Permalink

        relendo seu comentário…..
        Acho q deu pra sacar o porque, do interesse das ONG’S ambientais por coisas longes e distantes da maioria da população.
        Se elas fossem defender melhorias nos centros urbanos, para haver tais melhorias teriam que ser contratadas empresas , pra realizar tais serviços ( esgoto, lixo, despoluição do ar, etc ) e ai elas n poderiam participar de licitações, ou coisas afins, pq n tem formação técnica pra executar tais obras.
        Mas …
        Com a defesa das florestas, nenhuma empresa legal, participa, elas são as donas do campinho,e fazem o que querem sem fiscalização nenhuma, ate pq n existe regras, ou como poderei dizer, uma definição do que aplicar e o resultado que deveria aparecer.
        e como é um campo enorme e indefinido, é fácil conseguir grana de governos, empresas e da população. É um negócio( nicho de mercado) que não termina.
        E sem concorrência


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