Pelo bem do planeta: não pense nem questione, apena obedeça.

Por Bruno Rezende.

bruno rezende, coluna zero, greenwashing, meio ambiente, sustentabilidade, consumo consciente, reciclagem, campanhas, propaganda, marketing

Não use sacolas plásticas, apenas ecobags; Apague as luzes quando uma campanha publicitária mandar; Troque seu automóvel por um modelo “ecológico”; Apoie nossa campanha: curtindo, seguindo, compartilhando; Seja sustentável; Salve o planeta; Preserve o meio ambiente.
Quantas vezes você já ouviu pelo menos uma dessas ordens por aí? Muitas? Em algum momento você parou para pensar ou pesquisar sobre tudo que lhe mandaram fazer para “salvar o planeta”?

Campanhas que descobrem o pé para cobrir a cabeça

Eu poderia fazer um blog ou um livro só com estas campanhas ou citando eventos sem sentido  mas para ilustrar vou citar só duas campanhas recentes.

Vamos supor que em um dia qualquer você está navegando pela internet quando é surpreendido pelo banner de uma campanha dizendo para apagar as luzes por 60 minutos no próximo sábado. Você fica curioso e entra no site para entender melhor o objetivo disso. De cara você descobre que uma famosa ONG internacional está promovendo esta ação em diversos países pelo mundo e o Brasil é um país supostamente privilegiado por estar neste seleto grupo. Uau, o Cristo Redentor e os monumentos de São Paulo ficarão às escuras! Vou também apagar as luzes para “salvar o planeta” e, como sugere a campanha, filmarei tudinho para postar no YouTube e apoiar o movimento. Muito legal né? Responda-me: seu celular ou filmadora são movidos a quê?

Pois é, a maioria das pessoas não tem o hábito de pesquisar e questionar sobre o assunto, portanto não percebem o lado incoerente desta campanha. Simplesmente seguem o que dizem sob uma defesa vazia com intuito de apenas mobilizar. O ideal seria procurar saber mais sobre a ONG e as empresas por trás que a financiam. Afinal, não é difícil encontrar sérias acusações de greenwashing contra ela (veja aqui).

Existem também as campanhas elaboradas através de parcerias, onde empresas distintas se juntam para elaborar projetos a favor de uma causa qualquer. Não chega a ser uma joint venture, mas no final todos os envolvidos ganham (dinheiro). Na semana passada eu vi o anúncio de uma campanha dessas que entrará em prática no Rio de Janeiro. Um estímulo pelo Dia Mundial da Água, comemorado no dia 22 de março. Trata-se de uma parceira da Cedae com uma das maiores companhias de bebidas do mundo que irá premiar os consumidores que economizarem água. A premiação virá através de um programa tradicional de milhagem, onde quem economizar água vai acumular pontos que poderão ser gastos nas lojas virtuais conveniadas, dentre elas: Submarino, Americanas.com e Shoptime.

Quer dizer então que se gastar menos água vou poder consumir mais produtos de “determinadas” lojas virtuais? Entende-se que a campanha só defende o consumo consciente da água, mas o comportamento consumista dos produtos de alto valor agregado – como os eletrônicos vendidos nessas lojas conveniadas – é considerado normal, um benefício. E se, por exemplo, eu quiser comprar comida? Não, não posso. Se esta campanha fosse mesmo “do bem” eles teriam que, no mínimo, nos dar liberdade. Em vários países existem diversas campanhas parecidas, a diferença é que por lá eles dão dinheiro vivo para a pessoa gastar onde e como quiser. Qual o problema do Brasil em fazer isso?

Consumo consciente desenfreado

Você já reparou que existem na internet diversos blogs e projetos de estímulo a preservação ambiental, a reciclagem de lixo e a hábitos mais responsáveis que sempre premiam as pessoas com algum produto (ecologicamente correto ou não)? Basta você curtir, seguir ou compartilhar que eles sorteiam uma camisa, uma agenda, um iPad ou qualquer outra coisa. Como podemos avançar e evoluir se preciso oferecer algum produto para que alguém preste atenção e apoie o que eu falo ou defendo? Não meu amigo, não faz sentido.

O sujeito que se diz responsável com o meio ambiente ou sustentável não é aquele que trocou seu automóvel por um modelo híbrido, que usa roupas e acessórios ecológicos de estilistas renomados, ou aquele que descarta corretamente o celular que comprou há 6 meses, sem contar aquele que acreditou nas sacolas plásticas como vilãs e comprou diversos modelos de ecobag. Bom, isso não é nada mais que Eco-consumismoO sujeito começa a ser sustentável quando consome menos, seja produto ecológico ou não, ponto.

A sustentabilidade não é só preservação ambiental, como a maioria acha, até porque o discurso ambiental que vemos por aí é bem vago. Mas por que é vago? Simples, a maioria destes projetos ambientais que vemos por aí – principalmente aqui na internet – é criado em agências de publicidade, sob a pura visão mercadológica. É muito simples, por exemplo, criar um projeto que estimule a separação de lixo em casa e o descarte correto, com um pool de empresas patrocinando isso e divulgando suas marcas. Mas alguém cria ou patrocina projetos que estimulem a redução do consumo, que consequentemente reduziria o volume de lixo? Não. De uma forma geral o mercado não vê o consumo consciente como parte da sustentabilidade, por óbvias questões econômicas.

Para quem não sabe a sustentabilidade virou um lucrativo índice no mundo empresarial. A Bolsa de Valores de São Paulo mantém desde 2006 o ISE – Índice de Sustentabilidade Empresarial. Segundo dados da Anbima (associação das entidades do mercado financeiro) fundos enquadrados nas categorias Sustentabilidade e Governança Corporativa tiveram retorno de 10,54% no período de um ano, enquanto o Ibovespa, principal indicador da Bolsa, subiu apenas 4,5% no mesmo período. Nos últimos 4 anos o ISE só perdeu para o Ibovespa por 2 anos. Entendem agora porque várias empresas, principalmente aquelas com passado negro, estão se dizendo sustentáveis?

Se informar e questionar antes de obedecer

Se você está mesmo interessado nos assuntos relacionados ao meio ambiente, consumo consciente e sustentabilidade, por favor, se informe. Não saia obedecendo e defendendo qualquer campanha que vê por aí, pois te garanto que a maioria não passa de puro papo furado para lhe incutir uma ideologia que nada tem a ver com resultados efetivos e benéficos para a sociedade. Você pode sim estar errado, mas cabe a você perceber isso através dos seus valores e dos seus atos, não a partir de campanhas meramente publicitárias.

2 Comments

  1. Douglas de farias
    Posted 8 julho 2012 at 4:21 AM | Permalink

    Bem, se é pra manter o sentido empirista, não precisava retirar o progresso da bandeira, já estaria ótimo. Muito bom site !!!

  2. Jordana
    Posted 12 julho 2012 at 5:58 PM | Permalink

    Boaaa!!!!! e o povão acreditando que “uau nossa o mundo ta preocupado com o meio ambiente”, pra eles tanto faz tanto fez.Querem é o consumismo mesmo, e pronto, quanto mais comprarmos melhor.


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