A conferência sobre clima em Durban. Onde está o aquecimento global?

As coisas não parecem promissoras para as perenes confabulações sobre o clima que ora se realizam em Durban, África do Sul [28.11 a 09.12.2011]. Há pouca chance de que o Protocolo de Kyoto [de 1997], que está expirando, seja estendido. [O Protocolo de] Kyoto se transformou num enorme engodo que já desperdiçou centenas de bilhões de dólares, com poucos resultados que poderiam justificá-lo; de fato, o crescimento dos níveis de gases do chamado efeito estufa na atmosfera se acelerou desde então.

O que faz com que duzentas delegações se reúnam é um sonho— a abandonada esperança de que as nações desenvolvidas que ratificaram o Protocolo desembolsem cem bilhões de dólares por ano em programas de ajuda. Isso supostamente permitiria que as nações em desenvolvimento se adaptassem aos também supostos desastres climáticos que o IPCC, o painel de ciência climática da ONU, vem prevendo por mais de vinte anos. Dos Estados Unidos, que nunca ratificaram Kyoto, era esperada a maior fatia de contribuição a esses subsídios. Sem chance nenhuma; basta olhar as pesquisas de opinião e ouvir as declarações dos principais pré-candidatos Republicanos à presidência, onde denunciam essas previsões de desastres como “embustes” e “conversa fiada”.

Mas os cerca de dez mil participantes da conferência em Durban— delegados oficiais, representantes de governos e da ONU, os ongueiros e outros habitués— desfrutarão de mais uma experiência inesquecível: duas semanas de banquetes, festas, estadias em hotéis de luxo e reencontros com velhos amigos nesta 17ª reunião. Chefes-de-estado chegarão no último dia para assinar grandiloquentes comunicados conjuntos, mas partirão rapidamente, antes que tenham de explicar exatamente como irão “salvar o clima” e a humanidade.

As nações desenvolvidas passam por um período de exploração do sentimento de culpa, convencidas de que o seu desenvolvimento industrial resultou no crescimento dos níveis de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera. Mas isto é necessariamente ruim? O número de eventos climáticos extremos realmente cresceu? Ou, mais provavelmente, as maiores concentrações de CO2 melhoraram a produtividade agrícola e evitaram a inanição em massa de uma crescente população mundial? O que é que a ciência tem a dizer a esse respeito?

E é aí que o IPCC-ONU deveria desempenhar seu papel. Mas sua credibilidade foi danificada irreparavelmente— especialmente nos últimos dois anos. Pessoalmente, tendo a descontar as recentes revelações de emails do “Climategate” sobre a incompetência e falta de confiança que recai sobre o IPCC. Esses emails não me dizem nada de novo. Os “costumeiros suspeitos” aparecem conspirando e tramando para dar apoio à “causa”— mesmo que alguns estejam revelando dúvidas a esse respeito. Ainda assim, continuam a omitir informações, a manipular dados e a perverter o processo de revisão pelos pares, fundamento da integridade científica. O dano que causam a todo esforço científico é difícil de superestimar.

Mas à parte do comportamento antiético dos cabeças do IPCC, o que dizer da ciência propriamente dita? No fim das contas, talvez essa não esteja tão certa — apesar da afirmação contida no relatório do IPCC de 2007 de que havia entre 90% e 99% de certeza de que o aquecimento entre 1978 e 2000 seria antropogênico, causado pelo dióxido de carbono durante a queima de combustíveis parar gerar energia.

Na qualidade de cientista que estuda a atmosfera, estou intrigado com os resultados dos projetos BEST [Berkeley Earth Surface Temperature], que dizem “confirmar” as descobertas feitas através das análises de temperatura do IPCC. De fato, todas parecem apresentar um rápido aquecimento da superfície entre 1978 e 2000. Logo, afirmam eles, estaria provado que “o aquecimento global é real”. 

Mas eu me questiono sobre a lógica dessa afirmação. Afinal, os estudos do BEST e do IPCC não são realmente independentes; todos se baseiam nas leituras de termômetros de superfície em estações meteorológicas. Apesar de o estudo BEST ter utilizado dados de um número cinco vezes maior de estações, essas cobriam a mesma área terrestre— menos de 30% da superfície da Terra — com estações de registro mal distribuídas, principalmente nos EUA e Europa Ocidental.

Aparentemente, os aquecimentistas não deram ouvidos às declarações um tanto céticas do Prof. Richard Muller, criador e cientista-chefe do bem documentado e transparente estudo BEST. Ele declara que 70% das estações nos EUA estão mal localizadas e não atendem aos padrões estabelecidos pelo governo americano; no resto do mundo, a situação é provavelmente pior.

Mas diferentemente da superfície terrestre, a atmosfera não apresentou nenhuma tendência de aquecimento, quer sobre os oceanos ou sobre os continentes, conforme dados colhidos por satélites e balões atmosféricos. Para mim, isto indica que há algo de muito errado com os dados da superfície terrestre. Todos os modelos climáticos rodados em supercomputadores insistem que a atmosfera deve se aquecer mais rapidamente do que a superfície— e assim também afirma a teoria. 

Ora, então como é que alguém pode explicar a ausência de qualquer aquecimento da atmosfera? Tenho sérias dúvidas sobre os dados relativos a aquecimento dos oceanos no mesmo período. E praticamente não há o que discutir quanto aos dados de sinais indiretos [proxy data] (não-termométricos), que em sua maior parte, não apresentam nenhuma tendência de aquecimento pós-1978. Ressalto que a análise de múltiplas fontes de sinais indiretos publicada por Michael Mann et al (revista Nature, 1998) se interrompe subitamente em 1978. Eu faria uma pequena aposta de que essa análise tampouco apresenta algum aquecimento pós-1978 — e pode ser esta a razão de sua retenção.

Nenhum aquecimentista é capaz de explicar por que não houve aquecimento no século XXI, ainda que a quantidade de CO2 tenha aumentado rapidamente. Richard Muller é muito cuidadoso ao não fazer nenhum tipo de afirmação no sentido de que o aquecimento registrado da superfície terrestre tenha sido causado por atividades humanas. Ele nos relata que um terço das 39.000 estações usadas pelo estudo BEST mostram um resfriamento, e não uma tendência de aquecimento; Muller admite que “a incerteza [que envolve essas estações] é grande quando comparada às análises de aquecimento global”. Não obstante, Muller insiste na ideia de que se um conjunto suficientemente grande de números, mesmo ruins, obterá uma boa média. Eu não estou tão certo disso.

Seria uma boa ideia se o BEST levasse a cabo uma prudente verificação interna para eliminar possíveis fontes de erros. Obviamente, as verificações mais importantes seriam as dos registros atmosféricos, oceânicos e de sinais indiretos, que são independentes dos termômetros das estações meteorológicas de superfície. Mesmo assim, pode ser difícil apontar as causas exatas de mudanças climáticas.

Portanto, chego à conclusão de que o balanço dos indicativos registrados não sustenta a noção de um aquecimento entre 1978 e 2000; esse balanço de registros de dados contradiz a principal conclusão do IPCC, i.e., que o aquecimento recente é “muito provavelmente” (90%-99% de certeza) causado por gases do efeito estufa, tais como o CO2, resultantes de atividades humanas. O balanço não oferece qualquer indicativo de aquecimento futuro. O projeto BEST é um esforço valioso, mas não resolve nem liquida o debate.

Deste modo, nos resta um quebra-cabeça: por que os dados obtidos por estações na superfície terrestre diferem de todos os outros resultados independentes? Há mesmo um aquecimento global substancial que sustente a tese do AGA do IPCC? Essas são as questões fundamentais que deveriam ser focadas em Durban, e não a prorrogação do moribundo Protocolo de Kyoto.

Sobre o autor: S. Fred Singer é especialista em física atmosférica, membro pesquisador do Independent Institute, Professor Emérito de Ciências Ambientais da Universidade da Virgínia, fundador e ex-diretor do Serviço de Satélites Meteorológicos dos EUA. É autor do livro “Hot Talk, Cold Science: Global Warming’s Unfinished Debate (The Independent Institute).

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