A Terra pode estar esfriando. (Luis Carlos Baldicero Molion)

O clima da Terra tem variado naturalmente ao longo de sua existência, seja por força de agentes externos ao sistema, como oscilações da atividade solar e dos parâmetros orbitais, seja por força de agentes internos, como atividade vulcânica e tectônica de placas. Existem evidências, por exemplo, de que o clima esteve mais quente do que o atual entre os anos 800 a 1350 dC – o chamado “Período Quente Medieval”. Naquela época, os vikings colonizaram e praticaram agricultura nas regiões do Norte do Canadá e em uma ilha que foi denominada Groelândia (Terra Verde), que hoje está coberta de gelo.

Entre 1350 e 1850, o clima resfriou, chegando aproximadamente a temperaturas de até 2°C inferiores às de hoje, particularmente na Europa Ocidental. Esse período foi descrito como a “Pequena Era Glacial”. Após 1850, passou a se recuperar, aquecendo-se lentamente, e as temperaturas do ar, próximas da superfície, se elevaram cerca de 0,6°C em média. Portanto, não há dúvidas de que ocorreu um aquecimento global nos últimos 150 anos. A questão que se coloca é se a causa desse aquecimento foi natural ou antropogênica.

Na figura a seguir, é possível observar que, entre 1850 e 1920, a temperatura oscilou em torno de uma média de 0,4°C abaixo da atual. Entre 1925 e 1946, notou-se um forte aquecimento também de 0,4°C. Esse período de aquecimento coincide com a atuação simultânea de dois processos controladores do clima global. Um deles foi o aumento da atividade solar, que intensificou o fluxo de radiação incidente na Terra. O outro foi o aumento da transmissividade atmosférica, resultado de uma atmosfera mais limpa e transparente devido à redução da atividade vulcânica, que foi a menor dos últimos 150 anos no período de 1916 a 1962, de acordo com dados do Carbon Dioxide Information Analysis Center, órgão do Departamento de Energia dos Estados Unidos.

Em outras palavras, o aquecimento entre 1925 e 1946 foi natural, uma vez que as emissões antrópicas de carbono, devido à queima de combustíveis fósseis e à transformação do uso dos solos, representavam apenas cerca de 6% das atuais e, certamente, não intensificaram o efeito estufa.

Aumenta o consumo de energia

Com o término da Segunda Guerra Mundial, em 1945, teve início o processo de globalização propriamente dito. A evolução acelerada da indústria exigiu um consumo maior de energia e, portanto, as taxas de emissão de carbono aumentaram significativamente. Paradoxalmente, em que pese o aumento das emissões, a temperatura média global diminuiu cerca de 0,2°C entre 1947 e 1976, conforme pode ser verificado na figura acima .

No início da década de 1970, ,a mídia começou a divulgar, inclusive, a notícia de um consenso entre os cientistas a respeito do fato de que o mundo estava imergindo em uma nova era glacial. O argumento era embasado em evidências de que, no último milhão de anos, a Terra tinha passado por nove glaciações, que duraram cerca de 80 a 100 mil anos cada uma, interrompidas por períodos mais quentes, os interglaciais, cuja duração era de 10 a 12 mil anos.

Como se estimava que a última era glacial teria terminado há 15 mil anos, concluiu-se que uma nova era glacial estaria se iniciando. Ou seja, embora as emissões antrópicas tivessem aumentado e intensificado o efeito estufa em princípio, a temperatura média global havia diminuído. Isso sugere que o CO2 não é um controlador climático importante.CO2

Após 1976, a temperatura média global voltou a subir, e tal aquecimento – que, na visão deste autor, terminou em 1998 – está sendo atribuído pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) às emissões de carbono antrópicas.

Um dos vários problemas identificados para se aceitar esse último aquecimento como real é o fato de que ele não foi verificado em todas as partes do globo. Os Estados Unidos, por exemplo, possuem uma série de temperaturas médias do ar ao longo de 120 anos. Nela se observa que as temperaturas mais elevadas ocorreram nas décadas de 1930 e 1940. Comparadas às atuais, as temperaturas do Ártico também foram mais elevadas naquele período.

Outro problema é que os termômetros de superfície sofrem influência da urbanização, o chamado “efeito de ilha de calor”, que possibilita que as temperaturas urbanas sejam de 3 a 5°C mais elevadas em relação às das vizinhanças rurais. E as séries longas de temperatura, usadas para construir a figura apresentada, são provenientes de cidades que se transformaram em grandes centros urbanos pós-guerra.

Carbono não causa impacto

A análise da variação da temperatura no século passado sugeriu que não existe uma relação causal estreita entre tal variação e o aumento de CO2. Nos últimos dez anos, em particular, as temperaturas obtidas por sensores a bordo de satélites não aumentaram. Ao contrário, 2007 foi um dos anos mais frios nos últimos 20 anos, com resfriamento global de 0,7°C com relação à média, de acordo com dados compilados pelos pesquisadores Roy Spencer e John Christy, da University of Alabama, nos Estados Unidos.

Entretanto, as emissões antrópicas e a concentração de CO2 continuaram a aumentar, ultrapassando o valor de 380ppmv (partes por milhão em volume), de acordo com medições realizadas em Mauna Loa, Hawaí, pelo Earth System Research Labs, do governo norte-americano – um aumento de 21% com relação ao nível de 1957.

Essa tendência recente, embora deva ser tratada com cautela, pois uma série de dez anos de dados é curta sob o ponto de vista climático, vem reafirmar que o aumento da concentração de CO2 na atmosfera não comanda a temperatura global. Sua contribuição ao efeito estufa atual é estimada em 0,12%, de acordo com o documento Global warming: a chilly perspective (Aquecimento global: uma perspectiva gelada). Ou seja, o CO2 não é um controlador importante do clima global.

Os dados de temperatura e de concentração de CO2, obtidos dos cilindros de gelo da Estação de Vostok, Antártica, também confirmaram que nos últimos 420 mil anos o aumento da temperatura precedeu o aumento da concentração dióxido de carbono e que períodos interglaciais anteriores foram mais quentes que o atual.

Adicionalmente, é questionável o aumento de CO2 ser atribuído exclusivamente às atividades humanas, uma vez que os oceanos constituem um grande reservatório de carbono e existe uma grande ignorância em relação aos fluxos de carbono entre eles e a atmosfera. Modelos de solubilidade desse gás no oceano, por exemplo, indicam que um aumento de 1°C da temperatura das águas superficiais acarretaria um aumento de 28 a 30ppmv em sua concentração atmosférica. Em resumo, as evidências científicas comprovam que o aumento de temperatura do ar é que provoca o aumento de CO2, e não o oposto.

Tendência de resfriamento

A busca por uma explicação física para o resfriamento global ocorrido entre 1947 e 1976 – período no qual, como vimos, o Sol esteve em grande atividade e as emissões antrópicas de CO2 cresceram a altas taxas – levou os pesquisadores à hipótese de que o oceano Pacífico desempenha papel preponderante no controle climático em uma escala de tempo de duas a três décadas.

Já está comprovado que, embora persistam por 6 a 18 meses apenas, o fenômeno El Niño-Oscilação Sul (Enos), caracterizado por uma oscilação entre anomalias positivas da temperatura da superfície do mar (ATSM) do Pacífico (El Niño, fase quente) e ATSM negativas (La Niña, fase fria) – provoca grandes distúrbios no clima global. Por exemplo, o El Niño de 1997/98 produziu um desvio positivo de cerca de 1°C na temperatura média global.

Em 1997, Mantua e colaboradores, no estudo “A Pacific interdecadal climate oscillation with impacts on salmon production” (Uma oscilação climática do Pacífico interdecadal com impactos na produção do salmão), publicado pela Sociedade Meteorológica dos Estados Unidos, definiram uma oscilação de baixa freqüência das temperaturas de superfície do mar (TSM) do Pacífico como se fosse um El Niño-Oscilação Sul de longa duração – entre 50 e 60 anos –, também com fases fria e quente. Eles denominaram o fenômeno como Oscilação Decadal do Pacífico (ODP). Durante 20 a 30 anos, o Pacífico tropical ficaria quente e o Pacífico extra-tropical se tornaria frio (fase quente) e, nos 20 a 30 anos subseqüentes, essa configuração se inverteria (fase fria).

A análise dos índices da ODP do século passado mostra que a temperatura média global aumentou durante as duas fases quentes da ODP (de 1925 a 1946 e de 1977 a 1998) e diminuiu durante sua fase fria (de 1947 a 1976). Uma coincidência? Talvez não, pois o Pacífico ocupa 35% da superfície terrestre e sabe-se que a atmosfera é aquecida por baixo. Logo, variações das TSM do Pacífico de prazo relativamente longo, entre 20 e 30 anos, podem causar impactos sensíveis ao clima do planeta, afetando o bem-estar de uma geração inteira.

A análise dos dados de TSM do Pacífico do período de 1999 a 2007 sugeriu que a ODP está iniciando uma nova fase fria. Se isso se confirmar, então, haverá um resfriamento global nos próximos 20 anos, como o ocorrido entre 1947 e 1976. E para colaborar com esse resfriamento, coincidentemente, o Sol estará em grau mínimo de atividade nos dois próximos ciclos de 11 anos de manchas solares, até o ano 2030, aproximadamente.

Diante disso, é importante destacar que a História mostra que os períodos de aquecimento global no passado foram benéficos, produziram bem-estar social e permitiram que as civilizações florescessem. Os resfriamentos globais, em contrapartida, sempre foram nocivos para a humanidade.

Luiz Carlos Baldicero Molion
Diretor do Instituto de Ciências Atmosféricas da Universidade Federal de Alagoas

5 Comments

  1. luciano
    Posted 6 dezembro 2010 at 10:04 AM | Permalink

    Sou fã de carteirinha desse moço. Adoro suas colocações e seu conhecimento.

    sigo ele onde ele estiver, inclusive esteve no canal livre onde mandou ver nas duas vezes que esteve lá.

  2. Cátia
    Posted 6 dezembro 2010 at 11:18 PM | Permalink

    Beleza!!! Molion, vai dar na cara desses falsos cientistas. Tenho certeza que a Terra esta em fase de resfriamento não sou cientista mas é só sentir.

  3. breno
    Posted 2 janeiro 2011 at 2:36 PM | Permalink

    sou fã desse cara ele é muito inteligente parabens molion muitos anos vida!! já estou notando nos invernos estão ficando mais frio.

  4. cristiane rebola
    Posted 16 janeiro 2011 at 8:46 AM | Permalink

    Molin, sua tese se baseia n afirmaçao de que o planeta esta em realidade se esfriando, dados rescentes mostram o contrario:desgelo , desaparecimento de pequenas ilhas, etc….como nos alertava os cientificos . Voce segue mantendo sua opiniao de que a terra esta esfriando????
    Oubrigada!!

  5. Posted 29 maio 2011 at 10:40 PM | Permalink

    19 32271229 nosso escritorio

    Concordo estou sofrendo + com o frio do que com o calor (e o aquecimento? )


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