CLIMA BRASIL: A CONVECÇÃO AMAZONICA E ALTA DA BOLIVIA

Segundo Virji (1982):

Em geral, o balanço de vorticidade obtido a partir de dados sinóticos avalia somente os termos de larga-escala.

Se não houver balanço, é necessário interpretar o resíduo de vorticidade em termos dos processos físicos em escala de subgrade, como por exemplo a convecção (a qual não pode ser extraída de dados em larga escala), que pode ter suma importância no transporte de vorticidade em escala de subgrade.

Estudos anteriores mostram que os cumulus modificam a vorticidade em larga escala através de:

  • Advecção vertical de vorticidade média pelo fluxo vertical de massa associada a convecção.
  • A torção de vorticidade horizontal para a direção vertical devido à distribuição não homogênea de nuvens.

As regiões tropicais e subtropicais como América do Sul, África Central e Indonésia são os principais locais de intensa atividade convectiva diurna.

Ao redor do Himalaia, por exemplo, foi encontrado que a produção de vorticidade pelo campo de vento divergente na Alta do Tibet é balanceada não só pela adveção vertical de vorticidade e pelos outros termos da equação, mas também por um mecanismo de subgrade que remove vorticidade anticiclônica da região numa taxa de 4 x 10 -10 s-2.

A precipitação intensa e persistente sobre a região tropical da AS e a correpondente liberação de calor latente (que é cerca de duas vezes maior do que o fluxo ascendente de calor sensível) é o mecanismo que mantém anticiclones de altos níveis de “núcleo quente” em larga escala durante o verão.

  • ou seja: a convecção é a responsável pela manutenção da Alta da Bolívia e da Alta do Tibet.

Portanto, existe interesse em determinar a magnitude da contribuição deste termo para o balanço de vorticidade na AS. Como dados convencionais de altitude são esparsos na AS, dados de vento derivados de movimentos de nuvens foram usados no estudo.

A idéia é avaliar todos os demais termos de grande escala (advecção horizontal e vertical de vorticidade relativa, advecção de vorticidade planetária, o termo divergente e o termo de inclinação) e atribuir o resíduo do balanço ao efeito integrado das “torres quentes” de subgrade.

A advecção vertical de vorticidade ciclônica da camada limite em direção aos altos níveis pelas células convectivas do tipo “torres quentes” é provavelmente a maior contribuição para o resíduo que mantém o balanço.

A região de estudo: 15°N a 35°S e 030° e 090°W, com dois conjuntos de dados:

  • O primeiro conjunto de dados consiste em ventos de altos níveis (300-100 hPa) extraídos de nuvens, em vários horários do dia, para janeiro-feverereiro de 1975, 1976 e 1977, fornecidos pela National Environmental Satellite Service (NESS);
  • O segundo consiste em ventos de altos níveis (300-100 hPa) e baixos níveis (900-700 hPa), ambos extraídos de nuvens, para o período 24Jan-7Fev 1975, produzidos pelo autor no Man-computer Interactive Data Access System (McIDAS);
  • Uma análise prévia destes dados permite uma boa descrição da circulação de verão sobre a AS tropical e subtropical.

Nos altos níveis, um anticlone intenso e quase-estacionário se estendendo sobre quase toda a AS, um fluxo para leste em torno de 10°S e um forte fluxo cruzando o equador para norte-nordeste entre 055° e 080°W.

Nos níveis baixos, o jato norte-noroeste flui ao longo das encostas leste dos Andes e existe um fluxo de nordeste em quase todo a porção leste e norte da região continental.

As diferenças foram avaliadas em uma grade de 5° x 5° (lembrando que o NESS só tem altos níveis e o McIDAS tem altos e baixos) e para todos os pontos de cálculo os valores da derivada local eram duas ordens de grandeza menores do que os demais e portanto foram desprezados.

obs: é feita a ressalva de que existem alguns problemas com as estimativas dos termos de advecção vertical de vorticidade e de inclinação; isto se deve ao fato de que dados de vento extraídos de nuvens possuem pobre resolução vertical, limitando as estimativas citadas.

A seguir serão apresentadas as figuras das estimativas de cada termo; lembrar que os aspectos essenciais da interpretação destas figuras não estão no valor numérico exato e sim nas localizações e ordens de grandeza dos termos devidos aos efeitos de grande escala e as consequentes configurações do resíduo.

Os resultados do NESS encontram-se na figura 3 A-D abaixo:

  • O termo de advecção horizontal (3A): valores pequenos por toda a região; predominam as advecções de vorticidade relativa referentes à curvatura do escoamento na retaguarda e adiante do cavado em altos níveis; a nordeste da Alta da Bolívia, por outro lado, predomina a advecção de vorticidade de cisalhamento do escoamento e não da curvatura do escoamento.
  • O termo beta (3B): representa a advecção de vorticidade planetária, sendo positivo onde o escoamento é para norte, e negativa quando é para sul.
  • O termo divergente (3C): negativo sobre toda a região, implicando em tendência de vorticidade anticiclônica.
  • O resíduo (3D): ao norte de 10°S, as contribuições dos termos de advecção horizontal e divergência são compensados pelo termo beta; em contraste a isso, ao sul de 10°S não existe este balanço.
    • Isto implica na necessidade de existência de uma fonte de vorticidade ciclônica para compensar o excesso de tendência anticiclônica produzida pela divergência do escoamento em altos níveis na região ao sul de 10°S.

Os resultados do McIDAS enontram-se na figura 4 A-D abaixo:

Padrões similares aos do NESS, o que não necessariamente deveria acontecer uma vez que o NESS é a média de 6 meses em 3 verões consecutivos e o McIDAS se refere a um período específico de 6 dias (as diferenças entre ambos se deve ao fato de que, no período específico do McIDAS, a Alta da Bolívia e o cavado em altos níveis estavam deslocados para leste, e além disso o cavado estava menos intenso).

  • O termo de advecção horizontal (4A): tendência a vorticidade anticiclônica em quase toda a área (análogo ao NESS).
  • O termo beta (4B): novamente positivo para fluxo para norte e negativo para fluxo para sul.
  • O termo divergente (4C): negativo sobre quase toda a área, implicando em tendência anticiclônica de vorticidade.
  • O termo de advecção vertical (4D): comparável ao termo de advecção horizontal mas menor do que os termos beta e divergente; implica em tendência ciclônica em boa parte da área, com exceção da porção mais ao norte.
  • O termo de inclinação (4E): assim como o de advecção vertical, é comparável ao termo de advecção horizontal mas menor do que os termos beta e divergente; porém, seu sinal é basicamente oposto ao termo de advecção vertical.
  • O resíduo (4F): mesmo incluindo os dois últimos (que não foram calculados para o NESS) o resíduo ainda é grande e novamente apresenta sinais opostos ao comparar parte norte e parte sul, indicando a necessidade da existência de um mecanismo que compense a tendência de vorticidade anticiclônica ao sul de 10°S.
    • Considerando ambos conjuntos de dados, pode-se afirmar que a configuração do resíduo está de acordo com as ocorrências de excessos ou deficiências de precipitação no verão (regiões sudeste/centro-oeste e nordeste do Brasil, respectivamente).


Conforme Kousky (1988):

O conceito de radiação de onda longa emergente (Outgoing Longwave Radiation – OLR) tendo sido usado como indicador de variabilidade da convecção profunda na região tropical.

Sendo regularmente arquivado desde 1974 (com buraco em 1978) através dos satélites meteorológicos de órbita polar (passam 2 vezes pelo mesmo ponto em 24h), este parâmetro é geralmente usado como a média das 2 passagens diárias para reduzir os efeitos dos horários das passagens pelo equador e também as diferenças entre satélites.

Este trabalho apresenta uma climatologia de pentadas (médias de 5 dias) da OLR durante o período de janeiro de 1979 a dezembro de 1987, considerando dados com resolução de 2.5° em lat-lon para o setor América do Sul.  Determina também, o início e o final da estação chuvosa, segundo os seguintes critérios:

  • Início:
    • OLR menor de 240 W/m2;
    • Tendo as 12 pentadas  precedentes com pelo menos 10 ocorrências de valores maiores do que 240 W/m2, e
    • Tendo as 12 pentadas seguintes com pelo menos 10 ocorrências de valores abaixo de 240 W/m2.
  • * Final:
    • OLR maior de 240 W/m2;
    • Tendo as 12 pentadas  precedentes com pelo menos 10 ocorrências de valores menores do que 240 W/m2, e
    • Tendo as 12 pentadas seguintes com pelo menos 10 ocorrências de valores acima de 240 W/m2.

Figura 1a:

  • Duas regiões com baixos valores de OLR, uma no extremo noroeste e outra no extremo sul do Brasil.
  • Estas regiões vão se alongando uma em direção a outra, de modo que no início da primavera estas regiões se mergem e formam a famosa banda de baixos valores de OLR alinhada na direção noroeste-sudeste, sendo este uma padrão comum na região durante a primavera, verão e início do outono (ZCAS).

Figura 1d:

  • À medida que a ZCAS se move para nordeste, a região sul experimenta um acréscimo nos valores de OLR (decréscimo de precipitação).
  • No início de janeiro a ZCAS cobre toda a região do planalto (MG, SP, ES, RJ) e parte do Altântico Sudoeste.
  • No final de fevereiro início de março, a ZCAS diminui de intensidade e a maior parte da convecção intensa se restringe à porção mais ao norte.

Figura 1e:

  • No final de março início de abril, voltam a surgir as duas regiões citadas no início

Figura 1h:

* Obs1: é possível notar também o ciclo anual da ZCIT, permanecendo ao norte do equador de maio a janeiro, um pouco ao sul do equador e próxima ao nordeste do Brasil de fevereiro a abril e afastando-se em direção ao HN no período julho-dezembro.

* Obs2: dentro dos critérios adotados, no Pacífico Leste e em grande parte do Altântico Sul, não existe estação chuvosa; por outro lado, na Colombia, no noroeste do Brasil e no sul da Venezuela não se estabelece estação seca.

Sobre o oeste do Brasil, a estação chuvosa começa em agosto, enquanto que na região que vai desde o Mato Grosso rumo sudeste até São Paulo, ela começa em setembro; áreas mais ao norte e a leste, começam a estação chuvosa mais tarde.

A porção norte do nordeste do Brasil é a última a entrar na estação chuvosa, a qual começa em janeiro nesta área; por outro lado, as áreas costeiras do nordeste do Brasil (RN até sul da BA) não apresentam estação chuvosa.

* Obs3: nestes locais, a estação chuvosa ocorre durante o inverno e outono do HS, provavelmente devida a circulações diurnas locais de pequena escala, as quais não podem ser resovidas pelo presente conjunto de dados.

O final da estação chuvosa acontece primeiro no Brasil sudeste (meio de março ao meio de abril) e progressivamente mais tarde à medida que se vai para noroeste (final de maio na bacia amazônica).

* Obs4: há um progressivo aumento na duração da estação chuvosa à medida que se vai da região sudeste para a parte oeste da bacia amazônica, enquanto que as estações chuvosas mais curtas se encontram sobre o Nordeste, onde a estação chuvosa dura de 2 a 4 meses (exceto para áreas costeiras).

* Obs5: o valor limite de 240 W/m2 talvez não seja o mais adequado para a América do Sul, ou seja, estudos climatológicos complementares na região são necessários para a determinação de um valor ótimo.


No trabalho de Horel, Hahmann & Geisler (1989):

Descrevem o ciclo anual de convecção que se situa sobre a Bacia Amazônica durante o verão austral e sobre a América Central no verão do HN.

Utilizam dados de OLR e análises operacionais do ECMWF; fazem o estudo via médias representativas de pentadas para ambos, sendo que para a circulação enfoque maior é dado nos altos níveis (200hPa).

Comparam a variabilidade espacial e temporal da atividade convectiva sobre as Américas com os demais locais do cinturão tropical.

Dados:

  • A OLR proveniente de satélites de órbita polar, no período de junho de 1974 a maio 1988 (com 10 meses de furo em 1977-78 e um menor em 1987); valor de 200 W/m2 como limite para a identificação de atividade convectiva;
  • As análises do ECMWF (00Z e 12Z) com 6 variáveis (geopot, temp, umid.rel. e 3 comp. vento) em 7 níveis (1000, 850, 700, 500, 300, 200, 100hPa) de janeiro de 1980 a dezembro de 1987.

Os padrões climatológicos de OLR e circulação em 200hPa para a pentada 1-5 de janeiro e 16-20 de julho:

Nota-se na figura acima o par de anticiclones dos quais o mais ao sul é mais intenso (Alta da Bolívia) e um cavado à leste da Alta da Bolívia e região de convecção sobre a Amazônia.

  • A região de convecção ativa migra para noroeste, se estendendo do norte da Colombia e sobre o Panamá até parte do Pacífico.
  • Não há analogia para a Alta da Bolívia durante este período, isto é, a circulação anticiclônica em cerca de 20°N e 115°W é mais fraca e localizada mais a oeste do centro de convecção.
  • O mesmo pode ser dito sobre o cavado corrente abaixo da Alta da Bolívia.

O ciclo da atividade convectiva sobre a linha grossa da Fig.1b.

  • O ciclo anual da convecção em função do tempo e da latitude mostra valores de OLR abaixo de 200 W/m2 por cerca de 5 meses em ambos os hemisférios.
  • A mudança entre estes regimes se dá em períodos de transição relativamente curtos; no caso, observa-se que a transição dura menos para o estabelecimento de condições convectivas sobre a Bacia Amazônica.

Comparação com outros lugares:

  • A dominância do ciclo anual é evidente ao ser comparada com outras regiões equatoriais (sobre o Pacífico, por exemplo).
  • O fenômeno do El-Niño de 1982-83 é notável.

  • A importância relativa do ciclo anual comparada à variabilidade intrasazonal e interanual evidencia determinadas regiões do cinturão tropical com características de intensa atividade convectiva em ciclo anual.
  • Pode-se distinguir 3 padrões do tipo dipolo nos quais o ciclo anual domina a variabilidade de baixa frequência: Américas, África e Ásia/Austrália.
  • Observa-se que o ciclo anual sobre a África não apresenta a mesma simetria em relação ao equador como nas Américas: o do HN é menos intenso do que o do HS.
  • O oposto acontece sobre a Ásia/Austrália, onde a atividade convectiva sobre o HN é mais intensa do que sobre o HS.

O estabelecimento da estação chuvosa na Bacia Amazônica é relativamente rápido, durando menos do que 1 mês e por vezes acontecendo em apenas alguns dias; este rápido estabelecimento se deve a causas dinâmicas e não apenas à variação anual do ângulo de incidência solar.

Por outro lado, o término da estação chuvosa é mais lento, em geral maior do que 1 mês.


Estudo de caso: 01 a 04 de janeiro de 1999 – Anete dos Santos

  • Dentro deste período, foi selecionado os horários de 06:00 Z e 18:00 Z. O primeiro por apresentar a melhor visualização para o centro anticiclônico sobre o continente, e o segundo para haver configuração após 12 horas.
  • Observa-se a existência de uma região de convergência próxima a localização do núcleo em 200 hPa.
  • O campo de vorticidade em 200 hPa apresenta valores mais intensos no horário de 18:00 Z, o que pode se justificar pelo ciclo diurno.
  • A vorticidade em 925 hPa é pouco expressiva para a região.
  • No campo de omega são mostradas as regiões de movimento ascendente (alta) e descendente (cavado).
  • O evento foi muito bem representado na análise e permitiu uma visualização das considerações elementares para a caracterização da Alta da Bolívia.
  • Para realmente fazer um estudo do evento, é necessário se fazer a análise via equação do balanço de vorticidade mencionado anteriormente.



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