Uma semana de gelo na América do Sul

Cada furacão, cada enchente, cada estiagem, cada evento extremo tem sua história. Ocorrem em épocas diferentes, afetam diferentes locais e trazem diferentes conseqüências porque obedecem diferentes trajetórias. A onda de frio que está completando uma semana na América do Sul, com um saldo até o momento de 30 mortos, entra, inegavelmente, para a história. Se foi mais fraca que anteriores em alguns locais do continente, caso do Sudeste do Brasil, deixa um legado de marcas históricas em outras com conseqüências não vistas sequer em episódios marcantes como 1955, 1965, 1975 ou 1994. Apesar de ter ficado bastante longe de dar espetáculo, a neve caiu muito modestamente nos três estados do Sul do Brasil, o que é mais raro. No Morro da Igreja, houve o fenômeno da chuva congelante, o que é raríssimo. No dia 14, fazia mais frio à tarde em São José dos Ausentes que na base argentina de Marambio. Ontem, houve relatos de neve granular em Santana do Livramento, na fronteira, o que é igualmente raro. Muitas cidades gaúchas tiveram na sexta a tarde mais fria em uma década. Também no sábado, a temperatura chegou a 7ºC em Rondônia e em determinado momento deste domingo a temperatura era mais baixa em algumas cidades de Rondônia e do Amazonas do que em Ushuaia, uma aberração em pleno inverno meridional resultante do ar polar continental e um fenômeno local de aquecimento adiabático por intenso vento Noroeste na Terra do Fogo. Dados de estações do Amazonas do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), caso do município de Barcelos, revelam que a influência da massa de ar frio chegou ao pararelo 0, à linha do Equador. Em parte do Norte do Brasil, onde não houve recordes de mínimas, as máximas da tarde foram as mais baixas observadas em décadas.



Na Argentina, a grande maioria das províncias teve neve, em enormes quantidades em diversos pontos, a ponto de em Tucuman algumas localidades terem visto neve pela primeira vez desde 1921 As areias de Mar Del Plata ficaram brancas pela neve como somente se tinha visto em 1991, 2004 e 2007. Em Mendoza, meteorologistas descreveram como a “nevada da década”. A cidade de Buenos Aires teve a menor temperatura desde 1991. No Uruguai, caiu neve misturada à chuva em Montevidéu e outros pontos da costa como raramente se vê. Na Bolívia, caiu neve em localidades que não testemunhavam o fenômeno há 15 anos. No Chile, a região de Balmaceda testemunhou sua maior nevada em três décadas. Como se vê, do Sul ao Norte do continente esta massa de ar polar excepcional provocou conseqüências raras e inusitadas que, como dito, prosseguiram neste domingo como se verá a seguir.

A Argentina segue sendo o país mais castigado pela baixa temperatura e a neve. Como alertava a MetSul, a neve caiu neste momento em locais pouco habituados ao fenômeno. Nevou neste domingo em diversas localidades da província de Santa Fé, na região de Rosário, onde a neve é por demais rara. Tanto que o jornal local qualificou o evento como “inusual”. A precipitação foi fraca e começou a cair ainda durante a noite.
Neste domingo nevou forte também em alguns pontos do Noroeste da província de Buenos Aires. Na localidade de Lincoln, a Oeste da capital argentina, a precipitação de neve foi forte e chegou a gerar acumulação para a alegria dos moradores (Reprodução Todo Notícias).

Em Formosa, chovia com trovoadas e a temperatura era de apenas 6ºC na tarde deste domingo. Em Tucuman, continou nevando no começo do dia, mas o sol apareceu no decorrer do domingo. A neve para sempre será lembrada, afinal foi sem precedentes nas últimas oito décadas em algumas localidades.

Na Bolívia, a onda de frio ameaça se transformar numa crise humanitária. Os casos de mortes e doenças respiratórias não param de subir. A onda polar traz marcas muito abaixo de zero. Em áreas montanhosas houve o registro de 24ºC abaixo de zero. É tanto frio que o governo boliviano cancelou as aulas por três dias e ameaça prorrogar as férias forçadas se o frio não der trégua.

No Rio Grande do Sul, a sensação segue sendo de frio, muito em razão de umidade e do vento moderado, afinal a temperatura subiu. Choveu muito no interior gaúcho nas últimas horas e o Noroeste, como se antecipava, foi a região com os maiores acumulados de precipitação, com mais de 100 milímetros na região de Santa Rosa, superando a média de todo o mês em pouco mais de 30 horas. A imagem de satélite da tarde deste domingo mostra o Rio Grande do Sul coberto por nuvens que trazem chuva para todas as regiões, inclusive sobre Porto Alegre. Um sistema de baixa pressão contribui para a instabilidade e a temperatura segue se elevando discretamente em conseqüência do avanço de ar mais quente de Norte. Na área do Prata, a forte queda da pressão atmosférica traz intensa ventania e as rajadas já alcançaram quase 80 km/h no Aeroparque (centro da cidade de Buenos Aires).

Nesta segunda-feira, uma frente fria associada ao centro de baixa pressão a Leste da província de Buenos Aires, onde deve se converter em ciclone extratropical, deve manter o tempo instável no Estado. O dia começa com chuva em todas as regiões, mas o tempo melhora ao longo do período pela Metade Oeste. O vento se intensifica, trazendo sensação térmica muito baixa, e pode ter rajadas de 70 a 90 km/h no Litoral, particularmente no Sul. Na Metade Leste, com chuva que não se descarta possa ser forte em alguns momentos, a temperatura máxima do dia deve ocorrer entre a madrugada e o período da manhã, mas o avanço de ar mais frio a partir do Oeste deve derrubar a temperatura ao longo da segunda-feira. Assim, espera-se que a temperatura à tarde nesta segunda esteja mais alta do que no amanhecer em muitos locais como Porto Alegre. Há simulações computadorizadas sugerindo até marcas inferiores a 10ºC durante a tarde na Capital, o que é incomum. A tarde deve ser, assim, gélida como poucas vezes se viu nos últimos anos no Estado, antecedendo uma noite também fria e que deve registrar as mínimas do dia. Veja a projeção de temperatura do modelo americano GFS para 15h (18Z) desta segunda-feira.

Na terça-feira, sob influencia de ar seco e frio, a partir do afastamento da frente fria para o mar, a expectativa é de um dia de sol e nuvens que deve começar gelado com mínimas de até 2ºC a 4ºC e geafa. Já a quarta-feira é considerada um dia muito preocupante em termos de condições meteorológicas pela MetSul Meteorologia. Uma corrente de jato (vento) em baixos níveis muito intensa vai se estabelecer sobre o centro da América do Sul, trazendo vento Norte com rajadas muito fortes no interior, sobretudo na região de Santa Maria, onde pode provocar danos estruturais. Mantida a tendência dos modelos de hoje e Santa Maria pode experimentar na quarta um dos mais sérios episódios de Vento Norte dos últimos anos. O jato vai ter vento acima de 100 km/h a mil metros de altitude sobre o território gaúcho e deve trazer ar muito quente de Norte. Veja a projeção de vento a 1500 metros de altitude (850 hPa) e note como o jato estará intenso.

A temperatura na quarta-feira pode sofrer uma impressionante elevação com máximas à tarde 10ºC ou mais do que na terça-feira, mas esta elevação ainda não é certa pelos modelos. Para Porto Alegre a ultima saída do modelo americano índica máxima de 22ºC após ter projetado até 26ºC nas quatro saídas anteriores. Já o modelo europeu não arreda pé de sua estimativa de 26ºC a 28ºC à tarde na quarta-feira em Porto Alegre, projetando alguns modelos computadorizados mais de 28ºC.

Ocorre que no decorrer da quarta deve avançar uma frente fria de Sudoeste e que ao encontrar o ar quente e a acentuada divergência de ventos na atmosfera (shear) pode provocar tempo severo a muito severo com chuva forte, granizo e vendavais, até intensos, no Rio Grande do Sul. Não se descarta o risco de temporal em Porto Alegre até o final da quarta-feira. Um dos modelos analisados pela MetSul mostra para a tarde e noite de quarta-feira uma linha muito bem definida de tempestades avançando pelo Rio Grande do Sul, o que costuma no passado muitas vezes esteve associado nesta época do ano. sob a presença de um jato intenso e uma frente fria vindo de Sul, a vendavais, alguns intensos, e até com tornados.

Ar frio ingressa na sequência da passagem do sistema frontal frio e a temperatura deve sofrer um declínio muito acentuado, mantendo-se baixa na quinta-feira. O ar frio que ingressa no Estado não deve ser tão intenso quanto o dos últimos dias, mas o padrã de ondas da América do Sul passou a ser favorável a incursão de erupções polares.

Autor: Eugenio Hackbart
http://www.metsul.com/blog/

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